Como elucida Marcello José Abbud, diretor de operações da Ecodust Ambiental, entre todas as frações que compõem os resíduos sólidos urbanos gerados nas cidades brasileiras, o lixo orgânico é aquela com maior potencial de impacto ambiental quando destinada de forma inadequada e, paradoxalmente, aquela com maior potencial de valorização quando tratada corretamente.
Restos de alimentos, cascas de frutas, borra de café, folhas e outros materiais de origem biológica representam entre 50% e 60% de tudo que é descartado nos domicílios brasileiros, e a maior parte desse volume ainda vai diretamente para aterros sanitários, onde se transforma em dois dos principais problemas ambientais da disposição final de resíduos. Prepare-se para entender melhor por que o lixo orgânico merece atenção prioritária nas políticas de gestão de resíduos.
O que acontece com o lixo orgânico dentro do aterro?
Quando resíduos orgânicos são depositados em aterros sanitários junto com outros tipos de resíduo, iniciam um processo de decomposição em condições anaeróbicas, ou seja, sem a presença de oxigênio. Na prática, esse processo produz dois subprodutos com impactos ambientais significativos e de longa duração. O primeiro é o biogás, uma mistura composta predominantemente por metano e dióxido de carbono, gerada pela atividade de microrganismos que decompõem a matéria orgânica na ausência de ar. Já o segundo é o chorume, um líquido escuro e altamente contaminante que resulta da combinação da umidade dos resíduos orgânicos com os líquidos liberados durante a decomposição.
Conforme analisa Marcello José Abbud, o metano presente no biogás de aterro tem potencial de aquecimento global cerca de 28 vezes superior ao do dióxido de carbono em um horizonte de 100 anos, tornando o lixo orgânico depositado em aterros uma fonte relevante de emissões de gases de efeito estufa. Embora aterros sanitários bem operados captem parte desse biogás para queima ou aproveitamento energético, uma fração significativa escapa para a atmosfera antes de ser captada, especialmente nos aterros de menor porte e naqueles operados com infraestrutura insuficiente.

O chorume e seus impactos sobre o solo e os recursos hídricos
O chorume gerado pela decomposição dos resíduos orgânicos nos aterros é um dos líquidos mais difíceis de tratar no campo do saneamento ambiental. Sua composição inclui matéria orgânica dissolvida, metais pesados, compostos nitrogenados e uma variedade de substâncias químicas que variam conforme a composição dos resíduos depositados. Quando não é devidamente coletado e tratado, percola através do solo e pode atingir os lençóis freáticos, contaminando fontes de água subterrânea que abastecem municípios e comunidades rurais em áreas próximas aos aterros.
Segundo Marcello José Abbud, o tratamento do chorume é um dos itens de maior custo operacional dos aterros sanitários brasileiros, e sua complexidade aumenta proporcionalmente ao volume de resíduos orgânicos depositados. Em vista disso, desviar a fração orgânica dos aterros por meio de compostagem ou biodigestão reduz diretamente o volume de chorume gerado, aliviando a pressão sobre os sistemas de tratamento e reduzindo os custos operacionais das unidades de disposição final ao longo de toda sua vida útil.
O que poderia ser feito com o lixo orgânico em vez de aterrá-lo?
A fração orgânica dos resíduos urbanos tem alto potencial de valorização por diferentes rotas tecnológicas. Na prática, a compostagem transforma os resíduos orgânicos em composto estabilizado, rico em nutrientes, com aplicação direta na agricultura urbana, periurbana e convencional. Além disso, a biodigestão anaeróbia, realizada em condições controladas e em instalações específicas, produz biogás com alto poder calorífico e digestato com valor fertilizante, combinando geração de energia com produção de insumo agrícola em um único processo.
Na perspectiva de Marcello José Abbud, estruturar sistemas municipais de coleta separada da fração orgânica, combinados com unidades de compostagem ou biodigestão em escala adequada, é uma das medidas com maior custo-benefício ambiental disponíveis para os municípios brasileiros. Com efeito, a redução do volume de orgânicos nos aterros diminui as emissões de metano, reduz o chorume gerado, amplia a vida útil das células de disposição e gera um produto de valor agronômico que pode ser comercializado, transformando um passivo ambiental em recurso econômico concreto para os sistemas municipais de gestão de resíduos.

