De cúpulas que transformam sonhos em imagens a mostras que questionam o próprio uso da IA na arte, a tecnologia já faz parte da experiência cultural brasileira
A relação entre tecnologia e cultura deixou de ser uma promessa distante e passou a compor o cotidiano de museus e centros culturais brasileiros. Um dos exemplos mais recentes é a instalação Lumisphere Experience, montada em cúpulas translúcidas na Praça Mauá, no Rio de Janeiro, em parceria com o Museu do Amanhã. Dentro das estruturas, a experiência usa inteligência artificial para transformar sonhos em imagens, convidando o visitante a projetar visualmente como imagina o futuro. A proposta chama atenção justamente por inverter a lógica mais comum associada à IA, colocando a tecnologia a serviço da imaginação em vez de apenas da automação de tarefas. Estado de Minas
Os resultados obtidos com a instalação também revelam algo sobre a forma como os brasileiros pensam o futuro. Os dados coletados indicam que o público associa o futuro ideal à natureza e à harmonia, com as imagens geradas por IA destacando praias, florestas e montanhas, reforçando a ideia de um futuro tropical, sustentável e leve. Em termos de soluções tecnológicas retratadas, predominam alternativas discretas e de menor impacto ambiental, como energia solar, reflorestamento e reciclagem, o que sugere uma preocupação coletiva com sustentabilidade mesmo quando o exercício é puramente especulativo. Estado de Minas
A idealizadora do projeto, a artista Carey Lovelace, defende que a tecnologia deve ser vista como uma ferramenta e não como ameaça. Ela afirma que a inteligência artificial funciona como um instrumento criativo, comparável a um martelo, capaz de ajudar a criar coisas incríveis quando bem utilizada. Essa visão tem ganhado espaço entre artistas e curadores brasileiros, especialmente em um momento em que o país se prepara para sediar a COP30, o que coloca o debate sobre tecnologia, meio ambiente e criatividade em evidência dentro e fora dos museus. Estado de Minas
Exposições imersivas ampliam o uso de realidade virtual e IA generativa
Além das instalações voltadas para reflexão ambiental, o Brasil também tem recebido mostras que utilizam tecnologia de ponta para recriar experiências históricas. É o caso de exposições imersivas dedicadas ao Egito Antigo, que combinam diferentes recursos tecnológicos em uma única jornada sensorial. Entre as ferramentas utilizadas estão projetores para projeções em 360 graus com qualidade 4K, óculos de realidade virtual que levam o visitante para dentro de tumbas egípcias, e uma instalação que usa inteligência artificial para transformar os participantes em personagens como sacerdotes e faraós, por meio da composição de fotos. Esse tipo de exposição costuma ser produzido em parceria entre empresas brasileiras e estúdios internacionais especializados em conteúdo imersivo. IT Forum
Segundo o diretor responsável por uma dessas mostras, o uso combinado de tecnologias tem um objetivo pedagógico além do entretenimento. A ideia central é aproximar o público de contextos históricos distantes, tornando a visita mais participativa do que uma exposição tradicional baseada apenas em painéis e vitrines. Esse modelo, que já circula por diferentes cidades brasileiras, tem sido citado como um caminho para atrair públicos mais jovens às instituições culturais, um desafio recorrente entre museus e centros de exposição no Brasil.
Nem toda mostra celebra a IA: o debate crítico também ocupa espaço nos museus
Se por um lado a tecnologia é usada para criar experiências imersivas, por outro também tem servido de matéria-prima para reflexões críticas dentro dos próprios espaços culturais. No Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, a exposição “Antagonistas: Resistências Algorítmicas” propôs justamente esse contraponto. A mostra buscou subverter a lógica de que as promessas da inteligência artificial estão rapidamente capturando a imaginação coletiva, contextualizando produções de artistas, ativistas e cientistas que, desde os anos 1960, propuseram estratégias de resistência às tecnologias informacionais hegemônicas. Esse tipo de curadoria mostra que o ambiente cultural brasileiro não trata a IA como um consenso, mas como um tema em aberto, sujeito a leituras bem diferentes dentro do próprio circuito de artes. Metrópoles
Esse cenário plural também se reflete em eventos dedicados especificamente ao cruzamento entre arte e tecnologia. O ARTELLIGENT se apresenta como o primeiro evento no Brasil inteiramente dedicado à interseção entre arte e inteligência artificial, reunindo obras de artistas nacionais e internacionais em torno de um tripé que combina arte, ciência e educação. A proposta do festival vai além da simples contemplação visual, buscando também gerar debate entre artistas, pesquisadores e o público sobre os limites e possibilidades dessa tecnologia dentro da produção artística contemporânea. Museus
Ao observar esse conjunto de iniciativas, fica mais fácil entender por que a inteligência artificial se tornou um dos temas centrais da produção cultural brasileira em 2026. Seja para imaginar futuros possíveis, recriar cenários históricos ou questionar o próprio papel da tecnologia na sociedade, museus e exposições passaram a tratar a IA como parte do repertório criativo do país, e não apenas como uma ferramenta de bastidor.
Fontes consultadas: Estado de Minas, IT Forum, Metrópoles, Museus.gov.br

