Conforme explica Marcello José Abbud, empresário e especialista em soluções ambientais, é essencial chamar a atenção para um problema que mora dentro das casas brasileiras sem que a maioria das pessoas perceba. Pilhas usadas, lâmpadas fluorescentes, embalagens de agrotóxicos, medicamentos vencidos e tintas descartadas chegam diariamente aos caminhões de coleta municipal misturados ao lixo doméstico comum, sem qualquer segregação. Esse fluxo silencioso de resíduos perigosos é um dos desafios mais subestimados da gestão de resíduos sólidos no país.
A norma brasileira ABNT NBR 10.004 classifica os resíduos em função de suas características de periculosidade, como inflamabilidade, corrosividade, reatividade, toxicidade e patogenicidade. Quando esses materiais chegam aos aterros ou lixões misturados aos resíduos domésticos, podem contaminar o solo, o lençol freático e o ar, além de representar risco direto para os trabalhadores que operam na cadeia de coleta e triagem. O problema não é novo, mas segue sem solução adequada na maior parte dos municípios brasileiros.
Identificar, segregar e destinar corretamente os resíduos perigosos gerados em domicílios é uma responsabilidade compartilhada entre poder público, setor produtivo e cidadão. Continue lendo para entender como esse processo funciona na prática e quais são os caminhos já disponíveis.
Como identificar um resíduo perigoso no ambiente doméstico?
A dificuldade começa na identificação. Segundo Marcello José Abbud, a maioria das pessoas não reconhece que produtos de uso cotidiano se tornam resíduos perigosos após o consumo. Uma pilha alcalina contém mercúrio, zinco e manganês. Uma lâmpada fluorescente compacta carrega vapores de mercúrio. Medicamentos vencidos contêm princípios ativos que, se lixiviados para o solo, afetam organismos aquáticos e podem comprometer fontes de abastecimento hídrico.
A rotulagem é o primeiro instrumento de identificação disponível ao consumidor, isso porque, embalagens de produtos químicos domésticos, defensivos agrícolas e pilhas trazem símbolos padronizados que indicam periculosidade. O problema é que essa informação raramente é acompanhada de orientação clara sobre como descartar o produto após o uso, e a maior parte das campanhas educativas não alcança os segmentos da população que mais utilizam esses itens.

O que é logística reversa e por que ela ainda não chegou a todos os municípios?
A Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) estabeleceu a logística reversa como instrumento central para a gestão de resíduos pós-consumo de alta periculosidade. O mecanismo obriga fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes a estruturar sistemas de recolhimento dos produtos após o uso, independentemente do serviço público de limpeza urbana. Como aponta Marcello José Abbud, diretor da Ecodst Ambiental, na teoria o sistema é robusto; na prática, sua implementação ainda é irregular e geograficamente concentrada.
Pilhas e baterias, pneus, óleos lubrificantes, lâmpadas e embalagens de agrotóxicos têm sistemas de logística reversa regulamentados há anos. Mas os pontos de coleta estão majoritariamente nos grandes centros urbanos, e o acesso das populações de municípios menores a esses canais é restrito. O resultado é que o resíduo perigoso gerado no interior do país continua, em grande parte, sendo descartado de forma inadequada por ausência de alternativa acessível.
Como deve ser feita a destinação final de resíduos perigosos?
A destinação correta varia conforme a classe e a natureza do resíduo. De acordo com Marcello José Abbud, resíduos perigosos de origem doméstica devem ser encaminhados a operadores licenciados pelo órgão ambiental competente, que podem utilizar diferentes tecnologias conforme as características do material: coprocessamento em fornos de cimento, incineração em unidades licenciadas, tratamento físico-químico ou disposição em aterros Classe I, projetados especificamente para receber esse tipo de resíduo.
A segregação na fonte é condição indispensável para que qualquer sistema de destinação funcione. Misturar resíduos perigosos com resíduos domésticos comuns não apenas inviabiliza a reciclagem dos materiais não perigosos presentes no fluxo, como também eleva os custos de tratamento e aumenta o risco de acidentes durante o manuseio e o transporte.
A distribuição de obrigações é crucial para resolver o problema dos resíduos perigosos nas comunidades
Tratar a destinação de resíduos perigosos como responsabilidade exclusiva do cidadão é um equívoco que perpetua o problema. Marcello José Abbud pontua que uma distribuição eficaz depende de infraestrutura acessível, comunicação clara e obrigações bem distribuídas entre poder público, setor produtivo e consumidor.
Municípios que assumem protagonismo nessa equação, estruturando pontos de coleta, firmando acordos setoriais e capacitando agentes de limpeza urbana, avançam com mais consistência do que aqueles que aguardam iniciativas voluntárias de uma população que, na maioria das vezes, simplesmente não sabe o que fazer com o resíduo perigoso que tem em mãos.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez

