Na análise do ex-secretário de Saúde Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, a pandemia de covid-19 deixou uma lição contraditória para o rastreamento do câncer de mama: suspender exames parecia uma medida de proteção, mas o adiamento em massa gerou um risco que só apareceria anos depois. Durante os meses mais críticos, o número de mamografias no SUS caiu de forma expressiva, e a recuperação foi mais lenta do que muitos gestores previam.
O que aconteceu durante a crise
Com o avanço da pandemia, os serviços de saúde reorganizaram suas agendas para priorizar o atendimento aos casos de covid-19. Procedimentos eletivos foram adiados, e o rastreamento, por envolver mulheres sem sintomas, ficou entre as primeiras atividades suspensas.
Ao mesmo tempo, muitas mulheres evitaram ir a unidades de saúde por medo de contágio. Mesmo nos locais em que os exames continuaram disponíveis, a procura diminuiu. A combinação entre oferta reduzida e demanda retraída resultou em um grande volume de exames que deixaram de ser feitos no período. Profissionais de saúde também foram deslocados para outras funções, o que reduziu a capacidade de laudo e de agendamento.
O efeito que aparece depois
O câncer de mama não espera pelo fim de uma crise sanitária. Tumores que seriam encontrados pequenos, em uma mamografia de rotina, continuaram crescendo durante os meses de interrupção. Quando as mulheres voltaram aos serviços, parte delas já apresentava sintomas e doença em estágio mais avançado.
Segundo Vinicius Rodrigues, o represamento também sobrecarregou a rede na retomada. A demanda acumulada se somou à rotina normal, gerando filas para mamografia, biópsia e início do tratamento justamente quando a capacidade dos serviços ainda estava sendo restabelecida.
Rastreamento precisa resistir a crises
A primeira lição é que o rastreamento não pode depender de uma estrutura que se desmonta diante de qualquer emergência. Planos de contingência devem prever como manter ao menos a investigação de casos suspeitos e o atendimento a mulheres com sintomas, mesmo quando o rastreamento de rotina precisa ser reduzido.
Separar fluxos foi uma das estratégias que funcionaram em alguns locais. Serviços de imagem que atendiam em horários exclusivos, com medidas de proteção visíveis, conseguiram manter parte da produção e passar segurança às pacientes. Teleconsultas para orientar mulheres com sintomas e definir prioridades também ajudaram a evitar que casos urgentes ficassem sem resposta.
Busca ativa e agendas de recuperação
A segunda lição envolve a retomada. Esperar que as mulheres voltassem espontaneamente não foi suficiente. Municípios que usaram cadastros da atenção primária para identificar quem estava com o exame atrasado e convocar essas mulheres de forma direta recuperaram a cobertura mais rapidamente.
Mutirões e ampliação temporária de horários ajudaram a reduzir as filas, desde que acompanhados de capacidade para investigar os achados, sem transferir a fila para a etapa da biópsia. Na leitura de Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, a priorização das mulheres com maior tempo sem exame e daquelas com sintomas foi decisiva para que a recuperação alcançasse quem mais precisava.
Informação como ferramenta de gestão
A terceira lição diz respeito aos dados. Gestores que tinham registros organizados conseguiram medir o tamanho do atraso, identificar as regiões mais afetadas e planejar a recuperação com metas claras. Onde a informação era fragmentada, a dimensão do problema só ficou evidente quando os casos avançados começaram a chegar.
A experiência mostrou que comunicação com a população, sistemas de informação confiáveis e redes bem articuladas são tão importantes quanto o equipamento. Conforme avalia Vinicius Rodrigues, preparar o rastreamento para futuras crises significa garantir que a detecção precoce continue funcionando quando o sistema de saúde estiver sob pressão, e não apenas em tempos de normalidade.

